"Era uma vez um mundo
complexo, onde cada um tinha uma opinião diferente, mas, no geral, todos viviam
em “seus quadrados”, porém sempre olhando a grama verde do seu vizinho e
criticando. Então do outro lado do mundo veio um morcego voando e soltando sua
saliva infectada em toda parte que passava sobrevoando, fazendo com que muitos adoecessem
com perigo de até morrer. Dias sombrios reinaram sobre o Planeta Terra, forçando
famílias a se esconderem em suas casas para fugirem deste desmedido mal, o qual
se alastrou pelos quatro cantos da Terra, como um tufão tendo um enorme poder
de destruição. Todos se apavoraram e pararam com suas vidas normais. Não foram mais
ao trabalho, às escolas, às igrejas, aos clubes, às compras e aos passeios. As
ruas viraram desérticas, porque tudo estava fechado. As pessoas tinham medo até
de gastar algum dinheiro, porque pensavam que o mundo iria acabar. Então a
economia mundial entrou num colapso e todos os países ficaram pobres. Logo os
governantes de todos os países entraram em discórdia uns com os outros e a 3ª guerra
estava iminente. Nesta época as pessoas começaram a saber o significado da
solidariedade e do amor ao próximo. Entenderam que cada um depende do outro e
tudo que você faz ou deixa de fazer pelo outro, afeta, diretamente, a si mesmo.
Assim passaram a valorizar o Criador e se dedicaram mais ao espiritual. Foi quando
surgiu um milagre que veio dos céus e tudo acabou bem!"
Esta será a estorinha
que eu contarei aos meus netos numa data futura, se houver o amanhã para mim!
Hoje eu me encontro há
100 dias trancada em meu apartamento devido à quarentena!
Desde o início dos
noticiários, quando informaram que havia um vírus terrível chamado corona, eu
pressenti que isto iria se alastrar pelo mundo todo e muitos iriam morrer pela
doença do Covid-19. Tentei avisar, mas me chamaram de louca. Todavia, eu não
estava, eu visualizei o futuro e comecei a ajeitar a minha vida para uma
possível quarentena. Adiantei vários compromissos e tentei realizar logo
negócios pendentes, porque tinha certeza que não iria conseguir finalizar mais
nada após a vinda do corona vírus para meu país. Acharam que eu estava
neurótica e sendo irresponsável por querer até mesmo fechar alguns negócios jurídicos
por um preço menor. Contudo algo maior que eu, me avisava da fatalidade que
sobreviria ao mundo inteiro, semelhantemente, como eu contei acima, na
estorinha que irei contar um dia para meus netos, onde falo sobre os dias
longos e sombrios que vivemos e viveremos.
Quando a quarentena foi
decretada, muitas pessoas estava ainda em suas próprias opiniões e achando que
tudo não passava de uma manipulação governamental para enfraquecer algumas
nações. Realmente tudo aparenta ser tão surreal, que mais parece ser um
pesadelo tirado de tantos filmes de terror que já assistimos do que uma real fatalidade
ou algum fenômeno da natureza comum. Eu vejo e imagino como se tivéssemos sido abduzidos
pelos filmes de ficção. Logo, para eu escapar deste horror que nos assola,
passei a assistir filmes que têm o foco no belo, no romance, na fantasia, no
incrível e no magnífico. Desta forma consigo fugir da cruel realidade e assim posso
me transformar num Avatar que
sobrevive a todas as ameaças nesta ilusão, a qual me transporto. Passo a viver
dentro dos filmes que assisto, os quais me fazem tão bem que me remetem à
lembrança da vida normal que antes eu tinha.
Cada dia é vivido como
sendo o único dia de hoje. E o hoje se tornou um universo de tempo dentro das
24 horas do dia. O Tempo era raro, hoje, o tempo vem aumentando a cada semana.
Cada semana que passa parece que teve um tempo maior do que a semana que se
foi, e quando a semana se vai é melhor que tenha ido. Acho que por isto que passei
a dormir 13 horas por noite, para que o tempo passe e passe logo. Quem sabe
tudo logo se acabe com o tempo?!
Então voltando aos
acontecimentos... As pessoas logo se recolheram em suas casas com suas famílias
e pararam de sair até para trabalhar. Uns puderam continuaram com seu trabalho
remoto via internet e outros pararam totalmente a atividade, afinal era por 15
dias que iríamos ficar em casa. Todavia os quinze dias tiveram várias
prorrogações e não sabemos onde isto vai parar, porque ao que tudo indica, se
voltarmos a trabalhar, sermos expostos ao vírus, lotarão as UTIs e aumentarão
as baixas nos necrotérios, por isto temos que ficar em casa sem sair para canto
nenhum ou entraremos no tão temível lockdown.
Eu acabei ficando
sozinha, pois como fomos surpreendidos por algo que, como expliquei acima,
mesmo que eu já desconfiasse no que iria acontecer, nenhuma de minhas filhas se
organizou em direção para, quem sabe, ficarmos todas em uma casa somente. Por azar,
não deu tempo para elas viajarem para o sul e ficarem comigo. Cada uma mora em
um lugar distante uma da outra. Eu moro no sul, a pequena no sudeste e a mais
velha no norte do Brasil. Ficou bem difícil, de um dia para o outro, se deslocarem
em segurança e sem correr o risco de pagar a doença no caminho do transporte. Por
isto, acabamos ficando cada uma no seu lugar onde estavamos. Apesar de eu falar
que isto iria acontecer, era tida como uma pessoa exagerada e surtada. Imagine
se eu tivesse forçado a barra para saírem de suas casas, trabalho e estudos?
Teriam me internado como louca?!?! Quem dera que eu estivesse errada ou
exagerando!
Como um vírus é uma
partícula tão pequena, a qual comparando às ameaças que existem no mundo, que são
medonhas e podem, comprovadamente, causar um mal enorme, mal este que já
vivenciamos as consequências, como a desordem, a destruição e o perigo de morte.
Como existem outras ameaças, sensivelmente, tão mais fortes que este vírus a
nossa percepção, que somente a lembrança já causa pânico. Talvez seja esta a
justificativa que um pequeno vírus não provocou tanta preocupação quanto como a
consequência que tem causado, pois como poderia ter o poder de causar um mal
maior? Talvez por isto as pessoas não acreditaram que iria causar um estrago
tão grande e por tão longo tempo. Acharam que o dano não seria tão abrangente,
não teria a capacidade de se alastrar nessas proporções e tão rapidamente.
Pois é... Aconteceu! E
me encontro trancada em casa e sozinha, sem minhas filhas. E qualquer parente meu
está há uma distância de 1500 km no mínimo. Lamento muito por tudo isto! Às
vezes penso que se os governantes e principalmente o povo tivesse percebido o
perigo e trancado as fronteiras... Se tivessem se resguardado do contato uns com
os outros, se tivessem cuidado da saúde e da higienização, provavelmente, estaríamos
em uma situação melhor e eu estaria com minha família.
Consequentemente, passei
a conversar mais comigo mesma, porque com Deus já conversávamos comumente, há
muitos anos, só continuei minhas orações, que são feitas a cada momento! Então achei
assunto para conversar comigo mesma, assunto que não acaba mais. Nunca pensei
em viver na introspecção, agora fui forçada a entrar numa relação intima com
meu ego, com minha alma, com meus pensamentos e com meus medos. Somente deixei
de lado meus planos para o futuro, porque na perspectiva atual não se tem ideia
do que vem por aí. Vive-se um dia após o outro e ponto! Hahaha Tanto me foi
aconselhado para não viver ansiosa pelo dia de amanhã, para não prever um
futuro daquilo que ainda está começando a existir no hoje, com a finalidade de não
me causar estresse ou angústia antecipada. Agora aprendi, sem nenhum grande
esforço, a viver pensando na tarefa do dia e no máximo na do dia útil seguinte.
Como a vida te surpreende?!
Vivo num relacionamento
compulsórios comigo mesma! Há quem diga que devemos nos amar em primeiro lugar,
pensar no que queremos da vida para depois planejarmos um futuro. Neste momento
aprendo, impreterivelmente, a me amar e a me relacionar comigo, já que não tem
outra saída. Pensando bem... talvez me relacionar com minhas plantas?! Acho que
não! Isto poderia abrir caminho largo para a loucura, uma vez que a situação em
que vivo, neste momento da pandemia, foge da normalidade. Melhor eu me
concentrar em mim mesma e achar um caminho mais certeiro para a sanidade.
Sobre pensar no que
queremos da vida para depois planejarmos um futuro, tenho que dar uma pausa
nestes pensamentos, pois a situação é tão grave que nem sei se terei um futuro,
porque estou no grupo de risco. Há 15 anos atrás peguei uma pneumonia,
exatamente, na minha viagem de turismo para a China. Coincidência, não?!
Quando falamos em
relacionamento temos que avaliar a situação dos dois lados, porque é crucial
que ambos se conheçam e se aceitem, logo a convivência passa a ser menos
desgastante. Amar teu companheiro aceitando seus defeitos como sendo algo que
faz parte do pacote. Você o ama pelas qualidades e pelas suas dificuldades, inclusive,
você aceita e passa a não te perturbar. Pela compreensão, você entende as
razões do porquê o outro age ou é de uma forma diferente da que você gosta, então
você o aceita por completo, do jeito que ele é e passa amá-lo de uma forma mais
profunda. A relação se torna mais forte, pois age com lealdade no compromisso do
relacionamento, fazendo de vocês dois cúmplices de uma vida.
Então o mesmo acontece
quando você entra numa relação consigo mesma, você tem que passar a conhecer
tanto tuas virtudes como tuas dificuldades e perceber que, mesmo assim, você
pode conviver consigo mesma, já que você se ama e entende as razões do porquê
você é assim. E por lealdade a você mesma, passa a respeitar a coexistente de você
consigo mesma, passa a aceitar, exatamente, quem você é por completo e passa a
ter uma convivência harmônica consigo mesma através da introspecção.
São quinze dias de
quarentena prorrogados por mais 15 dias e assim sucessivamente! Tempo, mais
tempo e mais tempo de tempos. Deve ser tempo suficiente para você se conhecer,
aprender a se aceitar, se respeitar, passar a se entender, se perdoar (caso
tenha algo para superar) e chegará o tempo de você se amar. Verdadeiramente se
amar! E agora por completo, amar a quem você é na integra.
Não tem tempo para
receios, uma vez que para qualquer canto que você vá, fatalmente, se encontrará
consigo mesma. Dizem que a convivência leva ao costume. Se algum dia eu tive
algum impedimento de me conhecer profundamente ou enfrentar meus medos, o tempo
chegou e não tem mais espaço para inseguranças. Então passo a ver tudo sem
receios, porque, na realidade, o meu maior medo se encontra lá fora - vírus.
Entro nesta relação por
osmose e encontro uma pessoa amável e digna de merecimento de todo amor carinho
e atenção. Não sei mais se devo continuar a lamentar por este tempo terrível da
quarentena ou se devo ser grata ao universo que permitiu estes dias fatídicos na
quarentena, os quais me levaram a encontrar a pessoas mais importante para mim
no universo: eu mesma! A consequência do mal foi obter um bem inestimável – a reconciliação
com a minha própria pessoa.
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